Uma garota de apenas 12 anos foi agredida, aqui em Recife, inclusive a cacetadas, por nada menos de 10 alunos da mesma escola onde ela estudava, todos também garotos e garotas. Fato ocorrido – primeiro o fato tem que ocorrer – e não falta quem a ela não hipoteque solidariedade e tenha idéias brilhantes para, como num passe de mágica, acabar com o problema de violência nas escolas, sempre nas suas idéias incluindo as já famosas “transferências de responsabilidade”, como bem se depreende das novíssimas declarações da não menos novíssima nomeada Senhora Secretária de Educação do Recife. “Temos que nos solidarizar com essa criança e teremos ações específicas para ela”. Que bom, minha senhora, que bom! E continuou: “A repressão é a nossa última instância. Iremos desenvolver um trabalho com todos os agentes das escolas, professores, diretores, coordenadores pedagógicos, que passarão a ser mediadores de conflitos”, fechando com chave de ouro a senhora Secretária: “A função desses mediadores será a de informar os pequenos sobre os valores que norteiam a convivência harmoniosa em sociedade. Nós (adultos) sabemos que é errado agredir e discriminar as pessoas apenas porque são diferentes, mas as crianças não sabem. Ninguém nasce com essa concepção previamente. Temos que educar os mais jovens para que eles tenham essa percepção”. Mas que beleza! Mas minha senhora... min... minha senhora... permita-me dizê-lo, com todo o respeito que lhe tenho, mas a senhora tá mais por fora da realidade escolar brasileira do que umbigo de vedete ou bandeira de higiene. Se não, minha senhora, se não?! Eu lecionei em escolas particulares - e só em particulares - durante mais de trinta anos, desde a mais pobrezinha, nascida e finada talvez mesmo antes da senhora nascer, até a mais famosa, santa e rica, aquele lá de Boa Viagem, isso sem contar com faculdade e, pelo menos até a época em que deixei de lecionar, há apenas três anos, vivi e vivenciei realidades de salas de aulas que até Deus duvida e digo a senhora que, em se tratando de aprendizagem e comportamento de aluno – com raras exceções, é claro – em nada modifica umas escolas das outra, as mais pobres das mais ricas, pelo menos nas que passei. E centenas, senão milhares de alunos eu já vi serem "passados de ano” porque não podiam ser “repetentes” senão, ou a outra próxima turma não seria formada, ou os pais os tirariam da escola e, na seqüência, os donos delas perderiam dinheiro. E só eram reprovados, em ínfimo número, aqueles por todos sabidos e tidos como extremamente insuportáveis e burros, ou - aliviando a barra deles - os que não queriam “nada com a vida” porque se assim não fosse “daria muito na vista”. E então eu posso dizer, minha senhora, que senti na pele o declínio da educação no Recife, quiçá no Brasil. E essa realidade, minha senhora, vem mudando a cada dia, mas para pior, e vai mudar muito mais se “as coisa” (“Por uma vida melhor”) continuarem como indo estão. Não adianta a senhora, ou qualquer outro vivente metido a entender do assunto educação, fazer uso de bonito jogo de palavras, querer fazer de diretor, coordenador pedagógico e especialmente professor “mediador de conflito” e achar, como o nosso grande cantor popular, que “tudo, tudo, tudo, tudo vai dá pé ...”. Se não? Então faça o seguinte, minha senhora, saia de sua pomposa função e tente passar seis meses lecionando em qualquer das escola da rede ou estadual ou municipal, especialmente nas chamadas “escolas de periferia” (e não se esqueça de ir no seu carrinho novinho e estacioná-lo em lugar que seus “pequenos” alunos/criança tenham acesso) e tente mediar conflitos entre eles. Faça isso, minha senhora, faça isso porque, quando a senhora estiver fazendo eu lhe garanto que, no mínimo, a senhora irá ver o que se sentir prejudicado apontar para a senhora os dois dedos da mão direita e dizer, fazendo biquinho e enchendo as bochechas de ar, “tuff, tuff”, ou então fazer a senhora ver que vai chamar “alguém” (sei lá quem!) para “resolver o problema” com a senhora, ou então ele mesmo dizer que “vai resolver” com a senhora. Se não, minha senhora?! E a mãe de uma “criança” dessa (criança partícipe da “geração carái”, que faz do biscoito redondo e da bolacha quadrada que recebe da tal “merenda escolar”, nas próprias dependências das escolas, discos voadores, e não tem quem o impeça porque só poderá ser impedido se se a ele dirigir com firmeza e isso é “agressão”) ainda chega na escola, à porta da sala de aula onde está o filho dela, com ele professora e alunos dentro e,“sem tê nem p’rá quê”, ainda abre a boca e berra, enraivecidamente gesticulando: “O meu fio não é pió do qui os daqui, porque aqui num tem ninguém qui preste!”. E com medo de alguma séria represália, minha senhora, simplesmente o funcionário ameaçado pede transferência daquela escola. Ou a senhora também não pediria? Ou a senhora não está acreditando no que estou escrevendo? Se não, minha senhora, então também não acreditaria em outras que sei, talvez muito piores como, por exemplo, das porqueiras dos “trabalhos escolares” feitos nas “Lãs Ráuses” da vida e sobre as porcarias das “monografias” apresentadas após outras porcarias de “cursos superiores” terminados nas não menos porcarias das “falcudades de pé de esquina”, verdadeiras caça níqueis, não só porque eu presencie como também porque os jornais publicam, que se eu aqui narrar em detalhes vou terminar investigado, preso, julgado e condenado a 35 anos de cadeia e em regime fechado. Minha senhora... min... minha senhora! O buraco é muito mais fundo, muito mais fundo e muito mais em baixo. Pois é, minha senhora, pois é! E fique por fim sabendo, minha senhora, que não é da realidade escolar no Brasil que eu que estou debochando, porque dela lamento profundamente, mas das suas lindas palavras e das suas singelas e angelicais intenções, simplesmente porque eu as achei deliciosíssimas. E é por essas e outras que mais uma vez, no meu cantinho onde passo despercebido nesse mundão “internético”, baixinho e sabendo não ter eco o que escrevo, com todas as letras e pausadamente repito cá com meus botões não sem antes, é claro, de consciente e freneticamente bater palmas para a professora Amanda Gurgel: E-u a-c-h-o a-rr-e-t-a-d-o!
Nenhum comentário:
Postar um comentário